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 Memória Cultural
A imortalidade literária de Alberto Sousa, por Jaime Franco

Em A Tribuna, 21 de setembro de 1978

 

A imortalidade literária de Alberto Sousa

 

Jaime Franco

 

Os fundadores da Academia Santista de Letras incluíram entre os patronos, na Cadeira 2, agora ocupada pelo brilhante acadêmico Paulo Bonavides, o nome do saudoso jornalista e poeta Alberto Sousa, cujo nome ainda não figura em qualquer beco, rua ou avenida, tendo o busto num jardim da praia santista ao lado dos de Vicente de Carvalho, Fábio Montenegro, Martins Fontes, Paulo Gonçalves, seus amigos e admiradores. Das obras literárias, constituindo preciosa bibliografia, podíamos referir-nos às polêmicas filosóficas, históricas e literárias, constituindo treze volumes. Destas, podemos colocar a obra importante, “Os Andradas”, para dar-lhe a imortalidade das letras santistas, mostrando como os três irmãos Andradas ajudaram o príncipe português D. Pedro, depois imperador do Brasil, a proclamar a Independência, em 1822, sonhando numa Confederação Luso-Brasileira de Estados, Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Açores, Madeira, Cabo Verde, Goa e Damão, Timor e Macau. Sonho!

 

Entretanto, para esta imortalidade de um patrono da Academia Santista de Letras, em vésperas de possuir condigna sede social, contendo biblioteca e tipografia, basta-nos salientar a sua poesia, exarada no “Livro dos Amores”, explicando que ele era um diletante, porque jamais fizera versos pelo exclusivo amor aos ideais da Arte, mas antes como simples artifício prático, destinado a comunicar a outrem os seus pensamentos, em oportunidades excepcionais. Toda a vez de lhe parecer a linguagem poética mais nobre e sugestiva para representar certos estados psíquicos, Alberto Sousa não hesitou em compor e publicar muitos versos, escolhendo, com o maior escrúpulo intelectual, as poucas produções correspondentes às fortes crises morais, simbolizadas em quatro nomes de mulheres: Célia, Albertina, Violante, Sara – ledos sonhos de amor, fugidios, tipos de rara beleza, inspiradoras dos seus versos, às quais deixou suas produções. Outras poesias, traduções e assuntos de caráter episódico, foram condenadas ao esquecimento, no entanto quando chegou à idade madura dos 44 anos, e no receio de acontecer o mesmo que às poesias do irmão Ângelo de Sousa, como agora aconteceu ao sobrinho Lauro de Sousa e Silva, falecido e filho de uma irmã, então, publicou, em 1914, o “Livro dos Amores”.

 

Para consagrá-lo, o seu amigo e companheiro de campanhas jornalísticas, o glorioso poeta Vicente de Carvalho, apesar de algumas divergências filosóficas sobre o positivismo e o socialismo, não concordou com a confissão de não ter sido a pura preocupação da arte que o levou a essa resolução de editar as poesias, por ser “uma débil árvore abandonada, sem copa, sem sombras e sem ninhos. Ainda se estendeu em mais considerações dignas de respeito, pois as primeiras lufadas glácidas do outono lhe despiram quase totalmente a ramagem, da qual restaram quatro mirradas folhas; e dentre elas, ao cerrar de um crepúsculo cada vez mais denso, o amor, qual pássaro retardatário, vibrava e gorgeiava em lembrança da azulada manhã da mocidade – rápida primavera brilhou, ardeu, exultou e extinguiu-se no delírio, na febre e nos anseios das ilusórias paixões.

 

Alberto Sousa, relendo os versos do livro, escutava “ainda esse doirado pássaro cantar, e os gorgeios, coados cristalinamente através de dolorosas evocações da saudade, reanimavam as apagadas telas, reacendiam as chamas extintas, reavivam as ressurgentes quimeras, recompunham as pérfidas imagens e traziam ao vácuo do seu coração o fluxo ardente das recordações do passado. Enfim, eram versos sinceramente sentidos e intensamente vividos.

 

Essa confissão, de Alberto Sousa, emocionou Vicente de Carvalho que, para consagrá-lo, frisou que o amigo e companheiro de lutas escreveu belos versos, corretos e brilhantes sempre, muitas vezes com grande felicidade de imagens e de expressão, merecendo a imortalidade literária, pois tinha talento para versos amorosos, abstratos, descritivos.


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