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 Ribeiro Couto
A unidade imperial da nossa ortografia I

Na coleção de ensaios intitulada “A Língua Nacional” (1921), o grande filólogo brasileiro João Ribeiro escrevia: “Sob vários aspectos, como se verifica na questão ortográfica, somos tradicionalistas, ou antes, indiferentes à evolução de além-mar”. Não sei se o insigne mestre tinha muita razão. Tradicionalistas não faltaram, em grande número, depois que Portugal adotou, em 1911, o sistema simplificado de Gonçalves Viana; mas ainda quatro anos antes, em 1907, a Academia Brasileira tivera em estudos um projeto de análogas tendências, assinado por notáveis filólogos e puristas como Rui Barbosa, Carlos de Laet e Mário de Alencar, e escritores do porte de Sílvio Romero e Euclides da Cunha. Em ambos os países, portanto, há muito se vinha sentindo a necessidade de modificar o sistema ortográfico, a exemplo do que já fizera a Espanha cerca de um século antes. O erro consistiu em não se ter ouvido em 1911 o outro condômino da Língua.

 

Na segunda metade do século XIX, em consonância com fatos literários da significação do Indianismo e a famosa polêmica entre José de Alencar e José Feliciano de Castilho sobre a liberdade da expressão brasileira, a Nação sentia a necessidade de afirmar por todas as formas a sua fisionomia original. Desde os primeiros anos da Independência dominava a moda dos nomes e sobrenomes indígenas, que deram os Acaiabas, Iberês e Tupinambás ao nosso onomástico. A ortografia não escapou a essa nacionalização impaciente: surgiu a ideia de uma ortografia nossa, brasileira – e fonética, ortografia que nos distinguisse da de Portugal, então etimológica. Ainda hoje, aliás, temos um distinto general reformado, creio que antigo professor do Colégio Militar, que, em folhetos e em artigos de imprensa, defende e emprega um sistema fonético de invenção sua. E invenções como essa já conhecíamos, de outros professores; recordemos só o sistema proposto por Macedo Soares, por volta de 1880.

 

Fica patente, por tudo isso, que sempre houve entre nós quem optasse pela corrente fonética. Depois de 1911 é que se acentuou, em certos meios, a preferência pela ortografia tradicional. A alguns publicistas parecia que grafar as palavras como os Portugueses passaram a fazer representava uma sujeição do nosso pensamento ao pensamento português. A reforma portuguesa, não obstante, encontrou logo no Brasil adesões prestigiosas, de filólogos como Mário Barreto, Antenor Nascentes, Sousa da Silveira, e mesmo de poetas. Nessa ortografia é que Mário de Andrade anunciava a sua Gramatiquinha da Língua Brasileira e que Manuel Bandeira cantava a

 

...língua errada do povo,

língua certa do povo,

porque ele é que fala gostoso o português do Brasil

 

Quando pelas alturas de 1924 as duas Academias (e nunca daremos graças bastantes ao eminente Júlio Dantas, paladino dessa campanha) resolveram tomar a peito o restabelecimento de uma ortografia comum, já não era possível voltar atrás. Mesmo que a tendência da imprensa brasileira fosse para a grafia antiga, já a Ciência dera em 1911um largo passo cujas vantagens pedagógicas haviam conquistado a consciência do professorado nos dois países.

 

Se a língua portuguesa tiver que evoluir no Brasil para variações sintáticas e prosódicas cada vez mais sensíveis, como é possível que suceda ao longo dos anos, a ortografia do Acordo de 1945 não será obstáculo a essa evolução. Em que século, porém, ou em que milênio, deixará a linguagem brasileira de ser língua portuguesa, é segredo que a Deus pertence.

 

O movimento em favor da denominação “língua brasileira” é uma atitude puramente psicológica e nada científica. João Ribeiro propunha, em 1921, que ela fosse chamada de “nacional”, traduzindo assim o statish language sugerido pelo escritor Rupert Hughes para o inglês falado nos Estados Unidos da América. Na verdade, o que o eminente filólogo defendia (e isto vinha de longe, de Manuel Antônio de Almeida, de José de Alencar, de Joaquim Manuel de Macedo) era a legitimidade vernacular da expressão brasileira. A Língua é bem a portuguesa, como o próprio mestre reconhecia nestas linhas do mesmo livro: “Sem dúvida alguma, a nossa língua é a portuguesa, mas enriquecida e adaptada ao novo e longínquo ambiente a que veio respirar. Não só enriquecida a vemos, mas ainda reconstruída pela renovação de antigos elementos preservados desde a vida colonial.” Estudando aí a “antiguidade dos brasileirismos”, escreve: “No século XIX (1813), no tempo de D. João VI, quando já se pressentiam os alvores da Independência, o nosso lexicógrafo António de Moraes e Silva, aproveitando a planta do Dicionário da Academia e os trabalhos de Bluteau, compunha o seu grande Dicionário, que é ainda hoje o melhor e o mais autorizado da Língua. Não se esqueceu o nosso Morais de incluir no seu léxico um grande número de vozes brasileiras ou portuguesas já diferenciadas na América. Na sua mesma Gramática, que é de 1802, aparecem anotações naturalmente sugeridas pela linguagem do Brasil.” Parece claro, pois, o pensamento de João Ribeiro: a língua portuguesa é uma só. Pertencem-lhe (ao invés de repelidos como espúrios) todos os elementos ameríndios, africanos ou outros com que ela se vem enriquecendo. Essa abundância de afluentes correndo para a mesma bacia não nos permite falar de uma língua brasileira, e sim, quando muito, de uma linguagem brasileira. Ainda assim, para esta última, não há região brasileira que se possa tomar como padrão. Os Caiçaras (praieiros do meu litoral paulista) falam diferentemente dos Caipiras do vale do Paraíba, dez léguas apenas de serra acima. No país inteiro e tão vasto, em que estes fenômenos se repetem, todos nos entendemos numa só e única língua, apesar das numerosas tendências dialectais de cunho inconfundível: cada região guarda o seu jeito, as suas particularidades, até mesmo por vezes os seus vocábulos próprios, de uso local e intransmissível. As personagens das novelas amazônicas de Peregrino Júnior, impregnadas de expressões dialectais amazônicas, não podiam ser inteiramente compreendidas pelo Brasileiro do Centro ou do Sul sem o auxílio de um glossário. E que Brasileiro do extremo norte compreenderá, sem um glossário, as novelas de Hugo de Carvalho Ramos (Goiás), de Valdomiro Silveira (São Paulo) ou de Simões Lopes Neto e Darci Azambuja (Rio Grande do Sul)? Tudo isso, entretanto, é linguagem brasileira. Tudo isso é enriquecimento da língua portuguesa no Brasil. Se a missão da arte literária é, antes de tudo, representar o espírito de um povo, nada mais necessário do que fixar a expressão imediata desse espírito, que é a Linguagem. Mas aí chegamos à questão delicada. O incessante variar da Língua, a ação de influências glotológicas locais e, em conseqüência, a formação de dialetos, não dispensa os filólogos, os artistas e as pessoas cultas de defenderem a unidade, a força imperial da língua soberana e única. Ninguém de boa fé, bom senso e boa cultura pode ter interesse em apressar divórcios idiomáticos. “Em tempo, o povo, que é o maior de todos os clássicos (no dizer de um deles), dirá a última palavra”, afirmou o mesmo João Ribeiro. Reconhecendo embora que a língua do país é a portuguesa, o grande filólogo não lhe queria esse nome, como se isto de nome de línguas dependesse do nosso mero arbítrio, como o nome dos nossos filhos: “Em verdade, cá no Sul, como no Norte, precisamos de afirmar a existência e uma língua de Estado. Não será uma língua nova, mas um propósito de indiferença pela língua alheia.” (Curioso notar que o inesquecível mestre, no instante mesmo em que trata da justa independência da nossa linguagem, deixa-se ir àquele “cá no Sul”, de pura soância lusitana, em vez do brasileiro “aqui no Sul”.)


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