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 Ribeiro Couto
A unidade imperial da nossa ortografia IV

Quis Rebelo Gonçalves, com generosa insistência, que eu escrevesse um prefácio para o seu Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa. Continuo assim a figurar em mais um episódio da grande página histórica das duas pátrias lusitanas – a unificação do seu sistema ortográfico. Se diante de tais honras nunca recuei, é porque, incompetente embora, tenho sempre diante de mim a veneranda figura daquele que há quarenta anos me incutiu o amor da Língua, o velho professor Tarquínio da Silva, obscuro e doutíssimo filólogo da minha cidade natal. À sua memória dou contas do amor aprendido. Para a vitória de causas tais, sirva-se cada qual das armas de que dispõe: uns com a inteligência e a erudição; outros com o coração e o instinto.

 

Já agora, terminados os trabalhos das duas Academias e empenhada na oficialização dos seus resultados a palavra do Governo português e a do Governo brasileiro, as vozes com que se exprimem os dois povos terão uma grafia única, sejam de origem latina ou árabe, tupi ou bantu, embora cada português ou brasileiro, dos confins da sua serra beiroa ou do seu sertão paulista, continue a abrir ou fechar vogais, suprimir ou alongar letras e sílabas. O musculoso corpo da Língua é bastante sadio para suportar essas diferenças climáticas de expressão prosódica. Não importa que por algum tempo ainda queiram alguns teimar na confusão de idéias: o fato simples e patente é que a liberdade de ritmo, de composição da frase, de invenção vocabular, em suma, a liberdade de falar e de escrever a língua materna, em função do berço e da latitude, nunca poderá ser prejudicada pela existência de uma ortografia comum.

 

Vá por isso toda a nossa gratidão, de Portugueses e Brasileiros, aos que se empenharam nessa campanha, e particularmente a Júlio Dantas e aos dois filólogos José de Sá Nunes e Francisco Rebelo Gonçalves.

 

Ao longo deste Tratado, em que os competentes e o público terão mais uma demonstração do vasto saber do Professor Francisco Rebelo Gonçalves, diversas notas iluminam certo aspecto da sua personalidade: o incessante desejo de melhorar, a honestidade com que vai incansavelmente às minúcias, a angústia de não deixar nenhum ponto obscuro, imperfeito ou em suspenso.

 

Por essas características de sábio e de artista, por esse gênio da probidade e da perfeição, é que o mestre de Coimbra não se contentou com o trabalho já fornecido à Conferência, as Bases Analíticas. No Tratado, que sai à luz dois anos depois da Conferência, retoma ele o método das Bases, desenvolve-as, enriquece-as de notas, completa-as com esclarecimentos numerosos – fiel, sempre, ao que ficou estabelecido pelos mandatários das duas nações, embora nem sempre corresponda à sua própria doutrina. Por todas essas razões, e porque no monumento da Unificação Ortográfica o seu nome ficará gravado com relevo inconfundível, com límpida nobreza pode escrever dele, de regresso ao Rio de Janeiro, o Professor, o Professor José de Sá Nunes: “As suas BASES ANALÍTICAS atestam o seu imenso preparo filológico, o seu extremo com os superiores interesses da Língua, das duas pátrias irmãs e do futuro delas.” E ainda mais: “Rebelo Gonçalves não é o maior filólogo da língua portuguesa, porque os maiores se medem pela sua estatura.” 


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