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 Ribeiro Couto
A unidade imperial da nossa ortografia III

Parecia uma conferência frívola. Os cinco continentes estavam em guerra. E o Brasil em grande convulsão política. Que idéia de mandarins especiosos, essa de ir discutir em Lisboa questões de acento circunflexo e c antes de t! Com os mandarins, entretanto, estava a boa causa do espírito. E vem a talho de foice lembrar o que o ilustre José de Sá Nunes muito antes escrevera em sua Gramática Histórica: “Como o idioma pertence ao domínio da sociologia, é lícito asseverar que à ortografia está ligado o próprio futuro da Nacionalidade.” Na voragem de outras crises políticas e outras guerras, praz a Deus haja sempre quem não se esqueça de que, se a Cidade passa, o Busto fica.

 

Quando vierem a ser publicadas as atas da Conferência, há-de fazer-se inteira justiça ao trabalho dos delegados portugueses e brasileiros de Lisboa. Ainda há poucos anos, positivamente até nesse mesmo ano de 1945, muitos competentes duvidavam de que se pudesse chegar à unificação completa do sistema ortográfico dos dois países. Chegou-se. Será de bom gosto falar-se agora nas dificuldades de doutrina filológica, de posição nacional, de política pedagógica e até de temperamentos pessoais? Felizmente, naquela sala fechada do Presidente da Academia das Ciências, em que o calor lisboeta de Julho, Agosto e Setembro fazia pensar nos Verões cariocas, a altíssima figura de Júlio Dantas velava pelo êxito final. Só nos outros, participantes daquelas reuniões vedadas a testemunhas, sabemos até que ponto a incansável atividade, a clarividência e o tato de Júlio Dantas foram decisivos para esse êxito.

 

Já um mês depois de aberta a Conferência, assentados os princípios gerais constantes da primeira parte do Relatório de 10 de Agosto, desaparecia a faculdade de escolher entre duas grafias. “Cada palavra da língua portuguesa terá uma grafia única.” Era a vitória. Faltava o trabalho técnico e exaustivo: a elaboração de regras práticas e congruentes, que dessem solução uniforme a milhares de casos de espécie. Esse trabalho – o verdadeiro trabalho da completa unificação ortográfica – não poderia ter sido levado a cabo em tão curto prazo sem os dois filólogos, respectivamente técnicos das duas delegações, os Professores José de Sá Nunes e Francisco Rebelo Gonçalves.

 

As dificuldades da missão do técnico brasileiro não eram pequenas: para a organização, a ele confiada em 1942, do Vocabulário da Academia Brasileira, esta seguira o método de consulta a cerca de cinqüenta filólogos e professores de todas as regiões do nosso país. De modo que certas soluções conciliatórias, que pareciam dever impor-se desde logo à Conferência, encontravam no Professor José de Sá Nunes o natural escrúpulo de não querer contrariar tão numerosos competentes. Sua posição, por isso, era de pouca inclinação a qualquer transigência. Prova-o a substanciosa exposição intitulada: “Divergências entre o sistema ortográfico do Brasil e o de Portugal”, que levou do Rio de Janeiro, mas datou, no exemplar que ofereceu à mesa, de 6 de julho de 1945. À página 30 escrevia José de Sá Nunes: “As alterações ou divergências que se notam no trabalho brasileiro em confronto com o de Portugal tem todas sua razão de ser, em vista da evolução do Idioma deste lado do Atlântico e em razão das necessidades impostas pelo meio, pelos hábitos e pela própria índole idiomática do povo brasileiro. A maior parte dos preceitos do FORMULÁRIO e do VOCABULÁRIO da Academia das Ciências de Lisboa, estimados em noventa por cento do total, foram aceitos e aprovados pela Academia Brasileira de Letras nas suas INSTRUÇÕES (Formulário) e no seu PEQUENO VOCABULÁRIO. Quanto às divergências, que representam apenas dez por cento do conjunto de regras e de vocábulos registrados, não há como levá-las a mal, por isso que são exceções que põem mais em relevo o sistema ortográfico dos dois povos irmãos – Brasileiros e Portugueses -, sabido, como é, que não há regra sem exceção, e a exceção serve de confirmar a regra.” Como se vê, o Professor Sá Nunes chegara a Lisboa com a ideia de manter aqueles “dez por cento” de divergências nas regras e vocábulos – compreendida aí a questão das grafias duplas; a das consoantes mudas que se deviam ou não escrever ora em Portugal, ora no Brasil; a dos excessivos acentos destinados a mostrar qual a pronúncia em Portugal e no Brasil; a do hífen e a do apóstrofo, diversamente empregados no Brasil e em Portugal etc. As reservas do Professor Sá Nunes eram legítimas, uma vez encarado o caso do ponto de vista clássico, por ele igualmente sustentado: “Tudo que se diferencia na fala deve ser diferenciado na escrita.” Mas para que se convocara a Conferência? Ela fora convocada precisamente para se estudarem os meios de eliminar as divergências existentes, e não para legitimar a sua conservação. Aos dois técnicos cabia estudar e sugerir tais meios em Lisboa.

 

Foi na pesquisa das soluções adequadas que o Professor Francisco Rebelo Gonçalves revelou a sua pujante personalidade. A ele tocou a grande tarefa ortográfica da Conferência, a elaboração de todo o novo sistema – e a cada nova regra e a cada novo exemplo tinha de sustentar discussão com o técnico brasileiro. Dessa discussão entre os dois filólogos, e conforme fosse a decisão do plenário, advinha, às vezes, a necessidade de modificar-se esta ou aquela regra. Era novo trabalho para Rebelo Gonçalves, que tinha sempre em atenção a coerência com o que já estava aprovado. Possuído da idéia de chegar à perfeita unidade do sistema, não recuava diante de nenhuma dificuldade. Seu ponto de partida doutrinário fora diverso do do colega brasileiro: era preciso que não subsistissem divergências. Com esse “espírito conferencial”, de transigência e concordância, fora de Coimbra a Lisboa. Seu exemplo acabou por ganhar o colega brasileiro.

 

Vencidos os passos primordiais – abolição das grafias duplas, harmonização do emprego das consoantes mudas, redução dos acentos diacríticos às palavras uniformemente pronunciadas em Portugal e no Brasil etc -, as dificuldades de pronto entendimento entre o técnico brasileiro e o técnico português provinham, não raro, mais de diferenças na concepção do mandato do que propriamente de oposição doutrinária. O Professor Rebelo Gonçalves, tanto ao sugerir as soluções a adotar para a eliminação das divergências (parte segunda do Relatório de 10 de Agosto), como ao apresentar as notáveis Bases Analíticas dali resultantes, entendia que, para se chegar a acordo sobre determinados pontos, era necessário ir mais longe e alterar pontos conexos, embora quanto a estes os Vocabulários acadêmicos não divergissem. Mais ainda: muitas das grafias que em 1940 ele próprio consagrara no Vocabulário da Academia das Ciências, e o Vocabulário de 1943 aceitara, se lhe afiguravam agora merecedoras de retificação (tal a de “alvíssaras”). Contrariamente, o Professor José de Sá Nunes (em conformidade, aliás, com o que a delegação brasileira propusera e fora aceito, de início, como método de trabalho) entendia que só deviam ser discutidas as divergências; as grafias que estivessem conformes nos Vocabulários de Portugal e do Brasil não podiam ser objeto de exame. Entretanto, o encadeamento dos fenômenos ortográficos dava razão ao Professor Rebelo Gonçalves. Foi preciso por vezes, para a congruência de algumas soluções indispensáveis, reconsiderar pontos pacíficos.

 

As semanas, com tudo isso, iam passando. A atmosfera carregava-se de fadiga e de impaciência, da pressa de acabar, como sucede ao fim de certo tempo em todas as conferências internacionais. A organização poderosa de Rebelo Gonçalves, empenhado na elaboração coerente do seu conjunto de Bases Analíticas, sofria com a pressa e a pressão. Por todos os motivos, tanto de ordem técnica como pelos seus hábitos de meditação cuidadosa, pelo seu gosto em aprofundar pormenores e ver em cada árvore um elemento inseparável da floresta, o grande filólogo de Coimbra só pode ultimar tão complexo trabalho em tão curtos dias, porque se impusera o dever de dar à Língua o monumento da sua integras unidade ortográfica. Da casinha de Mafra, no lugar do Pinheiro, aonde fora passar enganosas férias, chegava torturado e apreensivo, já sabendo que em cada reunião da Conferência a ordem do dia, tacitamente estabelecida, era não demorar. Lá fora, os vocabularistas com livros no prelo aguardavam o resultado público do Acordo para afeiçoar os seus textos didáticos às regras novas. Os adversários do entendimento, e os das Academias, e os dos dois filólogos, preparavam tacapes e varapaus. No Brasil, alguns jornais perguntavam: já não durava muito, três meses, aquele passeio de poetas ao Estoril? Daqui lhe peço perdão, meu querido e insigne mestre Rebelo Gonçalves, se alguma vez também tomei o partido da impaciência, reclamando na segunda-feira a redação final do trabalho de sábado, prometido para domingo, mas que do lugar do Pinheiro só chegaria a Lisboa na terça-feira ao anoitecer...

 

Justamente porque não se pode fazer obra desta natureza em limitados prazos (que o entremeio de amáveis festas oficiais tornava mais curtos), é que a contribuição de Rebelo Gonçalves, na proposição, discussão, emenda e redação final das Bases Analíticas a todos nos encheu de admiração. José de Sá Nunes foi seu digno êmulo nos memoráveis debates da Conferência. Mas a Francisco Rebelo Gonçalves cabe o ter sido o arquiteto e o principal pedreiro do edifício.

 

A amizade que me ligou ao Professor Rebelo Gonçalves desde que o fui ver pela primeira vez em Coimbra, em começos de 1944, a mandado do Embaixador João Neves da Fontoura, para sondar as suas disposições sobre a harmonização dos dois Vocabulários, cresceu com o correr do tempo e tornou-se íntima durante os trabalhos da Conferência. Só a esse sentimento de amizade, idêntico ao que me ficou também unindo ao Professor José de Sá Nunes, devo o ter sido indicado por Júlio Dantas para presidir à Comissão de Redação. Está claro: meu papel nessa emergência foi o do estudante atento que segue um curso dado por dois mestres nem sempre concordes. Fui o padrinho de um duelo de competências, e não um presidente de comissão. 


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