Não precisamos, no Brasil, de traduzir para “língua nacional” o statish language preconizado pelo norte-americano Rupert Hughes para o idioma do seu país. A originalidade do pensamento brasileiro em nada se diminui nem corre perigo com o fato de exprimir-se numa língua que, por ser portuguesa, continuaremos chamando de “portuguesa”, a menos que dos próprios Portugueses parta a iniciativa de provar que os nossos modismos e enriquecimentos vocabulares nos tornam obscuros e “alheios”. “No dia em que não nos entenderem” – é ainda João Ribeiro quem escreve – “façam glossários.” Mas acrescenta logo: “Certamente não chegaremos a esse extremo de diferenciação.” Nesse caso, que base científica temos nós para renunciar ao qualificativo de “portuguesa” e substituí-lo pelo de “língua nacional”?
A campanha para a adoção de um único sistema de grafar as palavras em terras do Brasil e de Portugal teve que vencer os obstáculos criados pela confusão daí oriunda: a ideia de que ortografar como os Portugueses vinha a dar no mesmo que pensar ou falar como os Portugueses. Em tal confusão se distinguiu um jornal do Rio de Janeiro que, em 5 de Agosto de 1945 (durante a Conferência Interacadêmica de que sairia o Acordo Ortográfico), publicou, “para uso de colegiais e ginasianos, uma pequena relação de termos correntes no Brasil e em Portugal, provando as diferenciações vocabulares que já existem no modo de falar dos dois povos irmanados”, e concluiu afoito: “É bem uma explicação do desquite amigável da língua de aquém e de além-mar!” Seguia-se a lista, com os inevitáveis vocábulos de sentido gêmeo: “açougue – atalho”, “agasalho – abafo”, “acepipe – petisco”, “aluguel – aluguer”, “ventilador – ventoinha”, “vitrola – gramofone”, “chácara – quinta”, etc, etc. Entretanto, o artigo assim começava: “Em Lisboa, neste momento, encontra-se uma turma de acadêmicos cogitando do acordo ortográfico.” Que tinha a ver a ortografia com variações vocabulares que se verificam até entre Porto e Lisboa, para já não falar de distâncias maiores, como Belém do Pará e São Paulo? E grande novidade era! No mencionado livro de João Ribeiro encontramos referência ao trabalho com que o diplomata brasileiro Domingos Borges de Barros, visconde da Pedra Branca, contribuiu em 1824 para a obra de Adrien Balbi, Introduction à l´Atlas Ethnographique du Globe, sobre a língua portuguesa no Brasil recém-independente. A lista sumária do visconde da Pedra Branca, cento e vinte anos antes do jornal carioca, já reproduzia “noms qui ont changé de signification” e “noms en usage au Brésil et inconnus em Portugal”, ao todo numa boa meia centena de exemplos que, com muitos milhares de outros, não impediram o Idioma de dar nacionalíssimos escritores brasileiros que são simultaneamente clássicos portugueses, como Gonçalves Dias.
Ao ter a felicidade de acompanhar o Embaixador João Neves da Fontoura a Portugal, em Maio de 1943, como seu Primeiro-Secretário, mal imaginava eu que acabaria figurando numa conferência ortográfica.
A Conferência de 1945 vinha a ser o coroamento da obra do Embaixador João Neves da Fontoura em Lisboa. Fora sua a iniciativa da Convenção Ortográfica assinada em Lisboa, aos 29 de dezembro de 1943, em nome dos dois governos, por ele e pelo Presidente do Conselho e Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Professor António de Oliveira Salazar. Além de consagrar definitivamente o sistema ortográfico simplificado, resultante do Acordo Interacadémico de 1931 (Júlio Dantas e Fernando Magalhães), a Convenção estabelecia que “nenhuma providência legislativa ou regulamentar” seria tomada nesta matéria por qualquer dos governos signatários sem consulta ao outro, depois de ouvidas as duas Academias. Estava finda a era das surpresas. O exercício do “direito ortográfico” ficava doravante subordinado às obrigações do condomínio lingüístico.
Acontece que o Acordo Interacadémico de 1931 não levara completamente a termo a unificação do sistema. Em atenção, sobretudo, a diferenças de pronúncia, hábitos e tendências, suas disposições demasiado sumárias (mas já fora muito chegar-se então a tanto) haviam propositalmente deixado a porta aberta para numerosas diferenciações gráficas. No próprio Brasil era lícito, por exemplo, escreverem-se centenas de palavras com ou sem c antes do t, com acento agudo ou circunflexo. Admitiam-se grafias duplas.
Se antes de 1911 a Língua se escrevia de um modo só em Portugal e no Brasil (salvo nos casos de espécie, devido a discordâncias de etimologias), e nada impedia que num e noutro se pronunciassem diferentemente milhares de palavras, porque não se havia também agora de chegar à unidade, uma vez adotado em ambos os países o princípio da simplificação?
Ao tempo da Convenção ainda não estavam oficializados os dois Vocabulários acadêmicos, que patenteavam as muitíssimas e permitidas divergências. O da Academia das Ciências, pronto em 1940, servira de base ao da Academia Brasileira, acabado em meados de 1943. As duas Academias eram concordes em considerar como bastante bom o resultado obtido. A mais não parecia possível chegar-se.
Cabe ao Chefe do Governo português, após a assinatura da Convenção, o mérito de haver concebido a idéia de um derradeiro e maior esforço das duas Academias: a eliminação das divergências verificadas. Valia a pena tentar-se uma conferência interacadêmica com aquele objetivo, para só depois, quaisquer que fossem os resultados, oficializar os Vocabulários acadêmicos. No Embaixador João Neves da Fontoura, apaixonado pelos interesses da Língua, a sugestão encontrou o negociador entusiástico e hábil. Não só obteve desde logo o apoio do Governo brasileiro e da Academia, como seria ele, finalmente, indo ao Rio de Janeiro em Fevereiro de 1945, quem conseguiria que a delegação brasileira ficasse organizada e partisse num momento bem desfavorável a viagens tais. Num ambiente de oposição manifestada em alguns artigos de jornais é que embarcaram para Lisboa o presidente da Academia, Pedro Calmon, o príncipe dos poetas brasileiros, Olegário Mariano, e o filólogo José de Sá Nunes. O mais obscuro dos acadêmicos brasileiros, que em Lisboa se encontrava como Encarregado de Negócios interino, completaria a delegação. Àqueles três companheiros da árdua e venturosa tarefa desejo aqui render a homenagem da minha admiração, reconhecimento e amizade.