Este artigo é uma continuação daqui.
11 – Época de ataques
A partir de 1580, a região e a vila de Santos começam a sofrer uma série de ataques de piratas e corsários que invadiam e saqueavam as vilas e os povoados da região, levando tudo que havia de precioso e o necessário para abastecer os seus navios. O pior desses ataques é feito por Thomas Cavendish, que invade a Vila de Santos no dia 25 de dezembro de 1591, com mais de 200 homens, e ocupa o Colégio de São Miguel, que pertencia aos jesuítas. A sua presença é avassaladora para a região: saqueia tudo o que é possível; destrói todos os engenhos existentes, que nesta época são aproximadamente cinco; queima a capela de Santa Catarina, joga a imagem da santa no mar; enfim, fica aproximadamente um mês barbarizando a região. Podemos dizer que esta presença de Thomas Cavendish se deve a um comunicado enviado à Inglaterra de um inglês John Whitall que morava em santos, informando que o Provedor Brás Cubas e o então capitão-mor Jerônimo Leitão haviam lhe dado a certeza de haverem encontrado minas de ouro e prata nas incursões que haviam sido feitas pelo sertão do Brasil. A partir destas primeiras invasões, intensificam-se as construções de uma rede de fortalezas com o objetivo de proteger a Vila de Santos de outros possíveis ataques; sendo assim, foram construídos os seguintes fortes: Forte da Vila ou do Centro (meados do século XVI); Forte de São Tiago ou São João (1547); Forte de São Felipe (1552); Fortaleza da Barra Grande (1584); Forte do Góes (1767); Fortaleza de Santo Amaro (segunda metade do século XVI); Forte do Augusto (1734). A princípio as construções destes fortes demonstram a importância que Brás Cubas juntamente com os outros colonizadores haviam dado à região com a construção de toda uma estrutura político-administrativa, fazendo com que na Vila de Santos fossem centralizadas todas as decisões políticas, econômicas e também toda a defesa desta região do litoral. É interessante saber que Guarujá e Cubatão foram distritos de Santos até 1939 e Bertioga até o início da década de 1990.
12 – Santos e a formação do Brasil
Na década de 1590, a Vila de Santos já havia se consolidado como uma das mais importantes da Capitania de São Vicente e a mais importante desta região que hoje conhecemos como o litoral de São Paulo. Nesta época, o porto de Santos mesmo sendo bastante precário, conseguia aglutinar um pequeno comércio que se desenvolvia gradativamente e era para onde aqueles que conseguiam plantar ou produzir qualquer outro tipo de mercadoria afluíam para venda ou troca. As doenças, a fome, o ataque dos índios e dos piratas jamais conseguiam baixar o ânimo destes primeiros colonizadores, que sob o comando de Brás Cubas por mais de cinco décadas defenderam este território e foram criando as condições necessárias para que pudessem sobreviver e ter uma qualidade de vida um pouco melhor. Na verdade, esses primeiros colonizadores estavam fazendo muito mais do que isto, na sua luta pela sobrevivência e ao defender estas terras que haviam ocupado na primeira metade do século XVI criavam os fundamentos da sociedade santista. O que nós somos enquanto povo nos dias de hoje foi sendo constituído desde a chegada dos primeiros colonizadores e do início do povoamento junto ao Outeiro de Santa Catarina. Podemos dizer ainda mais, e, com toda certeza, que a formação do Brasil e civilização brasileira tem início com a colonização por esta região e principalmente por Santos e pelos santistas que estão presentes e todos os fatos e acontecimentos importantes da história do Brasil.
13 – Brás Cubas, homem de coragem e luta
Brás Cubas, tendo uma personalidade forte e sendo um homem de coragem e luta, desbravador, de uma visão de futuro e de uma capacidade administrativa muito grande, dedica a maior parte de sua vida a transformar a sesmaria que havia recebido num povoado promissor, que pelo seu desenvolvimento é elevado à categoria de vila. A partir de então, a Vila de Santos não pára de se desenvolver e é elevada à categoria de cidade no dia 26 de janeiro de 1839. Nesses primeiros momentos, quando o povoado e a vila de Santos vão construindo as bases sociais, políticas e econômicas que irão torná-la uma das cidades mais importantes do Brasil em termos históricos e culturais, tem a sua frente o fidalgo português Brás Cubas que juntamente com os outros portugueses, constrói povoado e a vila, orienta, administra e se coloca à frente das lutas e dos enfrentamentos necessários para que o povoado, a vila de Santos e o seu povo subsistam. Enfrenta a fome, as doenças, os índios que atacam constantemente (envia para Ubatuba uma expedição coordenada pelo padre José de Anchieta para negociar com os tupinambás, que se organizavam para atacar os povoados e vilas da região) os piratas que vem saquear o fruto do trabalho, colabora na estrutura e na expulsão dos franceses do Rio de Janeiro. Podemos dizer que a presença de Brás Cubas nesses primeiros tempos é de fundamental importância para que Santos se constitua como povoado e vila e posteriormente, na qualidade de Cidade.
14 – A homenagem a Brás Cubas
Brás Cubas, depois de uma longa vida e de serviços prestados à coroa portuguesa e ao Brasil, morre em 1592, seu corpo é enterrado na Capela Mor da Igreja da Misericórdia, que foi reformada em 1754. Essa igreja foi demolida em 1908 e se localizava onde hoje é a Praça da República, em frente à Alfândega. Segundo Frei Gaspar da Madre de Deus, monge e historiador beneditino do século XVIII, a lápide de Brás Cubas tinha a seguinte inscrição: “Sª de Braz Cubas Cavalleiro Fidalgo da Casa Del Rey. Fundou e fez esta Vila fendo Capitam, e Casa de misericórdia anno de 1543 descobrio ouro e metaes anno de 60 fez Fortaleza por mandado d´El Rey D. João III. Faleceo no anno de 1592”.
Os dias de hoje
Nos dias de hoje, a cidade de Santos é uma das mais importantes em termos históricos e culturais do Brasil. É também uma das mais antigas, pois, como vimos, o início de seu povoamento e a sua formação está ligada à chegada de Martim Afonso de Souza a esta região para dar início à colonização do Brasil. O povoado se constituiu em vila, tendo a frente Brás Cubas, transformou-se em cidade em 1839 e, até aproximadamente 1900, ocupou o espaço urbano que conhecemos como Centro Histórico de Santos, compreendido entre o Outeiro de Santa Catarina, a Igreja do Valongo e do Cais (antiga Praia) até as encostas do Monte Serrat. Hoje a cidade possui um patrimônio histórico e cultural de inestimável valor relacionando a nossa história à presença dos índios, escravos, caiçaras, piratas, ruas, praças e edificações que são verdadeiras referências da história da cidade e do Brasil; surgiram personagens importantes e fundamentais para a nossa história, tais como: Bartolomeu de Gusmão, José Bonifácio e Mário Covas; o povo santista, desde os primeiros momentos de sua formação, sempre esteve presente nas lutas em sua defesa: índios e piratas num primeiro momento, posteriormente se faz presente nas lutas pela Abolição dos Escravos e Proclamação da República no século XIX. Já em meados do século XX, participa incansavelmente da luta contra a ditadura militar e pela autonomia político-administrativa da cidade que havia sido cassada pelos militares. O precário porto do século XVI e os trapiches do século XIX se transformam no século XX no maior porto da América Latina.