Caminhando e andando e sofrendo a dedéu…
Caminhando e andando e sofrendo a dedéu…
Iniciou esse negócio chamado “2010”: um período, um ciclo, um tempo ou sei lá bem o que. Iniciou cheio de planos e promessas furadas, como sempre. Mas, na vida em que nossos pés tocam o chão, nessa em que as cidades brasileiras estão tomadas pela dengue, nossa educação ainda não vai lá muito bem das pernas, as guerras continuam e as dívidas não são pagas com boa vontade apenas, do Haiti ao perto-daqui, quanta desgraça! A chuva não dá trégua no Sudeste, a seca infernizando o Nordeste, os terremotos no Haiti, os Estados Unidos já bombardeando o Paquistão (Again, Uncle Sam!), a fome no Sudão que passou de 1,2 para 4,3 milhões de pessoas, pessoas fazendo justiça com as próprias mãos e linchando suspeitos de crimes no Rio Grande do Sul e no Nordeste. Que mundo maravilhoso! Dá até saudade do meu berço…
Começar o ano, abrindo o primeiro artigo com essas lembranças tristes não é uma demonstração de pessimismo. É uma lembrança necessária das consequências de nossos atos. Sabe, leitor, sempre houve desgraça no mundo, pelo menos desde que começaram a registrar essa tal de História. E, ao que parece, sempre o homem desprezou isso em troca de pequenos benefícios e tolas satisfações pessoais. Nossos antepassados foram ótimos pra pensar neles mesmos. O “mundo”, essa junção de “planeta + nós”, nunca interessou muito. Sempre foi cada um por si. E as consequências estão aí, nas nossas costas. Será que não chegou o tempo de começar a pensar um pouco mais amplamente, ou, em outras palavras, será que não chegou a hora de ser um pouco menos egoísta e um pouco mais consequente.
Olha, leitor, uma coisa todos sabemos: não vai ter jeito de melhorar as coisas sem abrir mão de algumas “cositas” desnecessárias. Se a gente não entender que poluir menos, destruir menos, ser mais solidário, equalizar as relações sócio-econômicas, etc., etc. (e todos os outros etcéteras que fazem parte dos discursos dos “ambientalistas radicais” do Green Peace e da WWF há tantos anos) significa abrir mão de algumas coisas, nada vai mudar… de novo. Acho que chegou a hora de entender que esses caras do Green Peace, da WWF e de outras instituições de preservação não eram babacas não! não tinham problemas sexuais não! não gostavam mais das baleias e dos elefantes que de seus cônjuges e filhos não! Esses caras estavam com a razão na maioria dos assuntos relacionados a cuidar desse mundo o tempo todo! A gente vai tem engolir isso como um fato histórico!
De fato, a gente precisa entender que não precisa trocar de carro todo ano pra ser feliz. A gente precisa entender que trocar a televisão que está boa por outra nova só porque a nova é de LCD ou de LED é uma estupidez que tem um preço muito alto pro planeta. A gente vai ter que engolir que trocar o PC que a gente não consegue usar nem 10% da capacidade por outro que a gente não conseguirá usar nem 1%, só pra dizer que está de computador novo, é um crime contra o planeta e contra a humanidade. A gente precisa entender que, embora goste de churrasco, vai ter que controlar um pouco o consumo de carne, porque o mundo não aguentará a ampliação indiscriminada de rebanhos de corte. E a gente terá que aceitar – infelizmente na marra – que consumir desnecessariamente não é consumir “um celular”, “um pedaço de papel” ou “um notebook”: é consumir o nosso mundo e a gente junto. Enfim: a mais dura lição de cada homem com dinheiro no bolso na pós-modernidade será “controlar-se”.
E não vai adiantar ficar esperando que conferências globais resolvam a questão. Comece aí na sua casa, caramba! Gaste menos água, gaste menos energia, converse mais com seus filhos sobre isso, converse com seus vizinhos sobre o mundo, exercite mais o amor ao próximo. Uma sugestão: comece o ano fazendo uma limpeza geral em sua casa e separando tudo o que não usa, de roupas a bugigangas eletrônicas, mas tudo mesmo. Sabe aquele monte de porcarias que você guarda há décadas achando que um dia vai usar? Sabe aquelas coisas inúteis pra você, aquelas que você comprou influenciado por aquelas propagandas de TV? Essas mesmo! Pegue tudo e dê. Você certamente vai encontrar alguém para quem essas coisas são importantes e serão imediatamente utilizadas. Dê tudo! Não venda: dê! Isso pode ser chamado de “distribuição de renda” ou de “exercício de solidariedade” e ajuda a gente a se desprender desse materialismo tosco que nos envolve. Faz um bem danado à alma. Aqui em casa ocorre uma ou duas limpezas dessas por ano. Quem acha ruim são as baratas…
Mas, lembre-se: depois da limpeza geral, não saia comprando todas as bugigangas de novo. Você vai ver que elas não faziam tanta falta como você pensava, que elas não eram tão importantes assim. E, mais uma coisa: com a prática, você vai jogar fora também aquela ideia idiota de que ao dar algo a alguém está jogando dinheiro fora. Ajudar alguém não é jogar dinheiro fora! Pense: quando você dá uma televisão usada pra alguém pobre, aquela TV que está lá no quartinho há cinco anos, sem utilidade desde que você comprou uma nova, só enchendo a paciência, você evita que essa pessoa compre uma nova. É menos consumo, menos lixo e o dinheiro que ela gastaria com a televisão, poderá gastar com comida ou roupa. Raciocínio simples, que eu tenho experimentado há algumas décadas. Funciona, pode crer!
Mas aí você vai perguntar: e o pobre funcionário da fábrica de TV? Se a fábrica não vender, ele vai perder o emprego! Aí está outro ponto crucial deste mundo: os empresários e as empresas também vão ter que se reeducar. Por que uma empresa precisa ter 5 bilhões de dólares de lucro anual? Como empresa, não basta que ela gere empregos, desenvolvimento e produção, tenha um capital de giro sólido e dinheiro pros investimentos necessários e não tenha prejuízo? Por que executivos precisam ganhar 50 milhões de dólares por ano? Por que os donos de grandes empresas precisam ter patrimônios pessoais de 50 ou 60 bilhões de dólares? Quantos dólares alguém precisa pra viver luxuosamente a cada ano? Quanto desperdício de dinheiro é necessário anualmente pra saciar a vontade de se fazer notar de uma celebridade? Uma existência luxuosa e sem desperdício ou acúmulo exagerado não bastaria pra eles? Pois bem: trata-se de um ponto delicado, mas terá que ser enfrentado, se não hoje, amanhã. É inevitável mexer nisso.
Em outras palavras: o mundo não será mudado amanhã, mas pode começar a mudar na sua casa hoje. Tome uma atitude em relação ao nosso planeta! Comece de alguma forma, inicie uma nova fase de conscientização em sua família. Reeduque-se e eduque para a preservação. Incentive essas ideias em sua igreja, em sua associação de bairro, em seu clube, nas reuniões familiares, dentro de você mesmo, sozinho! Mas faça algo!
Agora, sobre o tema principal desta coluna, que tal fazer um contrato nacional pela educação? Chega de jogar a culpa só na escola. O guarda-chuva da culpa é maior do que isso. Como pais, professores ou “simplesmente” cidadãos, vamos mudar um pouco os padrões de nosso comportamento em relação à Educação? A gente pode começar perguntando em quê pode ser útil na escola dos nossos filhos. A gente pode começar conversando mais com as crianças sobre coisas importantes. Quem sabe, se colocando nossos filhos pra ler em casa já não ajudaríamos a escola. A gente pode começar praticando um pouco mais nossos princípios morais e éticos no dia-a-dia, afinal, só o fato de não jogar um papel de bala no chão, onde não há uma lata de lixo por perto, já é um grande exercício de educação para a cidadania. Enfim, que tal se a gente se comprometesse a ser mais educado e a educar mais este ano? Nossas crianças agradeceriam, nosso país agradeceria. Esse vai ser o ponto de toque de meus textos neste ano: “o que eu posso fazer pela educação e, assim, pelo meu planeta?”. Abraços a todos nessa nova etapa! Uma existência feliz para todos!
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