Quarta-feira, 08 de Setembro de 2010
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Celso Ferrarezi
Semanticista, escritor e artista plástico paulistano, mora há 23 anos na Amazônia e dedica sua vida profissional à questão da educação brasileira. Site: www.cferrarezi.com

 Educação
Meditação Atemporal

Acabou o ano. Eu não fiquei rico. A produção de peru no Brasil aumentou 50% em 2009, dizem os jornais. Tornar-nos-emos o país do peru em 2010? A economia brasileira, a despeito de toda propaganda governamental, acabará o ano no vermelho. “Ano”, “período”, “2009”, “2010”. Por que insistimos em contar o tempo? A natureza tem ciclos, mas não conta o tempo. Os animais chamados de irracionais e as plantas não contam o tempo. O tempo não se conta a si mesmo. A natureza despreza veementemente essa noção de “tempo contado”. Mas, o homem teve que achar uma forma de estragar tudo! Resolveu “organizar” e “sistematizar” o que não precisava de mais ordem e nem de mais sistematização.

 

Por que temos que ter um “ano fiscal”, um “ano escolar”, um “ano civil”? Por que apenas não vivemos a vida independentemente do tempo que isso tome? Por que não estudar até cansar, tirar férias até descansar e voltar a estudar até cansar? Por que não colar grau na faculdade quando estivermos prontos, ao invés de se formar quando termina o tempo do curso, estando ou não preparados? Por que não ver que estamos crescendo e amadurecendo pelo que somos e não por causa de um número colado em um pedaço de papel na parede? Por que nos achar velhos ou criar complexos ridículos em função da data que carregamos em nossa identidade? Por que nos permitimos a ser classificados: “Você não tem idade pra isso menino!”, “Você não tem mais idade pra isso, velho!”?

 

A contagem do tempo foi uma maldição que o homem lançou sobre si mesmo? Segundo a Bíblia, no Paraíso, o tempo não era contado. Mesmo que não acreditemos na literalidade do relato bíblico, mesmo que o enxerguemos como um “mero mito judaico”, não é interessante perceber que não sabemos quanto tempo Adão e Eva viveram no Paraíso antes da queda pelo pecado original? Apenas quando saíram do Paraíso começaram a contar o tempo... E nos chega hoje a informação que Adão morreu com 930 anos de idade! Por que alguém que tinha a capacidade de viver 930 anos estaria preocupado em contar o tempo? Simples: porque agora ele tinha a perspectiva de um fim! O Tempo e o Fim são irmãos inseparáveis. A Morte é a melhor amiga do Tempo. Mas, antes, não havia perspectiva de morte, não havia necessidade de contar o tempo, não havia interesse no tempo, não havia “fim” e por isso, havia apenas interesse na vida!

 

Não me martirizo mais com o tempo! Não me martirizo mais com planos de Ano Novo. Faço planos pra minha vida, que serão meus planos se, durante essa minha vida, eu os alimentar e os concretizar, independetemente de datas ou prazos. E, assim, também não me martirizo mais por não conseguir cumprir meus planos, pois eles não têm prazo pra ser cumpridos - e quem sabe se um dia o serão? Não tenho metas pra amanhã ou depois de amanhã. Não tenho metas pra mim que digam respeito a tempos ou a momentos: minhas metas dizem respeito ao meu direito de realização e felicidade por toda minha existência.

 

Aprendi que a preocupação com o tempo nos torna doentes. Não quero ficar mais doente do que já sou! Não conto mais meus anos: quem os quiser contar que os procure em meus documentos. Não sou mais escravo das horas e elas, pra mim, só existem como referência dos começos, nunca dos fins! “A que horas começa minha conversa com você? Às tantas horas. A que horas ela termina? Quando for bom que a terminemos...”. Não sou mais escravo dos meses nem dos anos. Não me acho velho nem novo. Isso simplesmente não faz mais sentido em mim! Cada ato meu é um ato para a eternidade, mesmo me sabendo mortal. E é assim que encaro cada respiração, cada pulsar do coração, cada lampejo de luz que adentra meus olhos, cada letra que meus dedos doloridos digitam no computador.

 

Ontem, descobri que minha filha estava triste por causa do tempo. Ela queria ter dez anos pra poder andar no banco da frente do carro! E eu querendo que ela entendesse como o banco de trás é bom! Ela querendo que seu tempo passe mais rápido e eu querendo que o meu nunca passe! Mas, o tempo não volta, pois ele foi criado pra andar só pra frente, rumo à morte! Foi por isso que eu matei o tempo e me tornei um homem atemporal, de preocupações atemporais, de amores atemporais! Arranquei da minha testa a etiqueta com meu prazo de validade! Joguei fora o calendário que carregava pregado às minhas costas e cujo peso me arqueava com o acumular dos dias. Agora não tenho mais prazo pra ficar rico, e nem sei se ainda quero isso. Não me preocupo mais com o ano fiscal, nem com datas pra nos tornarmos o país do peru. Não tenho mais prazo definido pra amar minha esposa, meus filhos e amigos.

 

Agora, o tempo não é mais a corrente que me arrasta pelos pés, rudemente pela vida, no caminho de uma cova aberta, cuja boca desdentada ria de mim e pra mim a cada segundo. Agora eu rio dela. Eu rio da minha cova, pois aprendi a amar sem tempo, a viver sem tempo, a sonhar sem tempo, a ser atemporal num mundo que tem data de validade! Agora eu não caibo mais na minha cova! Tudo em mim é tão grande, sem a pequenez desafortunada que o tempo me impunha, que minha cova não mais será capaz de me abocanhar. Mesmo que ela consiga engolir um pedacinho de mim, que é meu corpo, o resto de mim nunca entrará pela sua garganta! Agora entendo porque o Cristo disse que o dia e a hora de Sua vinda ninguém sabe! Não sabe por que não interessa! Algo assim não se conta pelo tempo, mas pela fé e pelo coração! A Fé e o Coração nos fazem maiores do que qualquer Sepulcro!

 

Não desejo a ninguém um Feliz Ano Novo! Me nego a repetir essa insensatez! Não desejo a ninguém anos, meses, dias ou horas. Desejo a todos uma vida feliz, sem tempo, sem calendários nem relógios. Uma vida de preocupações atemporais, em que os prazos estejam em nós e sejamos nós, ao invés deles, a impor obrigações, desejos e amores. Uma vida em que as horas marquem inícios e não fins. Uma vida em que os momentos sejam eternos. E em que sejam vistos como eternos! Uma vida em que a morte não seja o objetivo final. Uma vida em que a aposentadoria não seja uma meta, mas apenas um passo a mais. Em que uma cifra no banco não seja um alvo a ser alcançado a qualquer custo. Uma vida, enfim, em que tudo isso seja tão-somente mais um singelo “acontecimento”. Uma vida em que o Fim esteja tão longe, mas tão longe, mas tão longe, que não faça mais sentido contar o Tempo, até que nem faça mais sentido falar em Fim, até que desapareça a noção de Tempo. E, em assim sendo, nessa vida “atemporal”, desejo apenas que ser feliz não seja pra você, leitor, uma meta do Ano Novo, mas uma experiência de toda sua existência.   


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