8/12/2009
As notícias por meio das charges
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Por Érika Pereira erika@artefatocultural.com.br
Ela habita as páginas dos jornais impressos. Às vezes aparece em forma de tiras, outras em caricatura, mas sempre com um único objetivo: informar por meio da imagem. Assim pode-se resumir a charge, um recurso de comunicação capaz não somente de fazer rir, mas também de causar ira e revolta.
Durante muito tempo, Santos foi berço de bons chargistas, que com suas criações ganharam espaço nos veículos e cativaram o público. Um exemplo é o caso do santista José Carlos Lobo, mais conhecido como JC Lobo.
Seu interesse pelos desenhos começou quando ainda era garoto. Costumava passar horas rabiscando e desenhando. Ele conta que sempre gostou de histórias em quadrinhos e até hoje se diz um grande apreciador.
Lobo começou como chargista em 1955 no jornal A Tribuna, onde trabalhou por oito anos. Em 1967 foi para o extinto Cidade de Santos, permanecendo por 20 anos, até o fechamento do veículo, em 1987. Lá, criou charges que causaram reboliço no meio santista. Até processo na Justiça Lobo teve que responder e algumas de suas charges foram censuradas na época da ditadura.
“Por intermédio das charges promovi campanhas. Não há dúvidas de que a charge é tanto jornalismo como publicidade.” diz. Para ele, é um editorial ilustrado que causa grande impacto na sociedade.
Ele conta que quando trabalhava no Cidade de Santos, os jornalistas procuravam determinados temas e trabalhavam intensamente. Analisavam e criticavam todos os lados, mas ficavam decepcionados, pois o trabalho deles não tinha a repercussão que tinham as charges. “O próprio prefeito da época, Oswaldo Justo, aceitava tudo, exceto meus desenhos”, diverte-se.
O rei do futebol também foi alvo de Lobo, mas ele é o único que não tem do que reclamar, pois sempre foi bem colocado no humor do chargista. Quando Lobo fez a primeira caricatura de Pelé, ele ainda era um garotinho e não tinha caído nas graças do futebol. Mas não demorou a fazer sucesso e então, lobo não parou mais de criar desenho sobre o rei.
Atualmente ele é o chargista com o maior acervo sobre Pelé. Seu livro com charges sobre o rei foi aprovado pelo Ministério da Cultura, para publicação dentro da Lei Rouanet, mas até agora não foi publicado, fato que Lobo lembra com muita tristeza. “Infelizmente não tenho corrida para arrumar patrocinador”, desabafa. E completa: “Sou o único cidadão que tem esse acervo e ninguém dá bola, quando deveria ser um orgulho para a Cidade e para o Santos Futebol Clube”.
As charges sobre Pelé também já lhe causaram problema. Certa vez, Lobo desenhou o Rei como se ele fosse Deus e um casal que olhava para o céu enaltecia o jogador. Por essa charge, Lobo foi duramente criticado pelo então bispo da Diocese de Santos, dom David Picão.
“O Pelé é o carro-chefe do meu trabalho. Acompanhei tudo sobre ele, que foi o maior jogador de futebol do mundo. Nunca haverá outro igual.
Hoje, Lobo publica suas charges no Diário do Litoral, onde está há cerca de quatro anos. Lá, ele continua tirando o sossego de muita gente e confessa: “Ás vezes exagero mesmo”. Em sua opinião, as charges não têm somente a função de fazer rir, mas a de causar emoção e principalmente combater.
Opinião um pouco diferente tem Sérgio Ribeiro Lemos, o Seri. Para ele, a função principal das charges é fazer rir e causar reflexão sobre o assunto.
O jornalista iniciou sua carreira no jornal Cidade de Santos, em 1983 e trabalhou depois em A Tribuna, onde permaneceu por 14 anos. Ele conta que quando era criança, via as charges nas páginas dos jornais e se maravilhava com o poder de comunicação delas. “Eu viajava! Demorava mais observando os detalhes do que tentando entender os editoriais”, conta.
Atualmente, trabalhando no Diário do Grande ABC, Seri diz que criar charges não é difícil. “Às vezes sai naturalmente, outras demora um pouco mais”
O trabalho de Seri ficou muito conhecido por sua personagem Bigail, criada em 1989. Além das histórias da personagem terem sido publicadas em A Tribuna, ela também já ilustrou o livro “Vamos a Luta”, sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.
“A Abigail é a minha criação mais importante. Ela carrega toda a carga de inspiração do meu trabalho”.
Mesmo tendo o trabalho de chargista em comum, Seri e Lobo se diferem até mesmo por serem de gerações diferentes. Mas ambos acreditam que o cenário político brasileiro ajuda muito na criação das charges. “Às vezes repito vários desenhos, pois é tudo a mesma coisa. Corrupção, fome, falta de ética, mentiras... Todo dia é isso, então é mais fácil”, brinca Lobo.
Seri também concorda, mas ele acredita que a charge precisa estar ligada à região onde o jornal circula.
Ilustrações vão permanecer
Ambos os chargistas acreditam que os jornais impressos continuarão a existir e dentro deles, as charges também. Seri comenta que tudo continuará, mas a comunicação irá se segmentar cada vez mais. “As charges estão migrando também para a internet”. E é por isso que Seri já mantém há muito tempo seu portfólio.
Já Lobo, tem uma posição diferente: “Computador? Não sei nem ligar”, brinca. Para ele, tanto os jornais como as charges sempre existiram, pois são uma tradição.
Além de continuar expondo seu trabalho na internet, Seri tem planos de lançar um livro de ilustração infantil. Lobo também quer continuar, mas apenas nos jornais. “Adoro fazer charges, mesmo com os aborrecimentos, pois saber que consegui comunicar, que tive uma resposta, é muito bom. Se eu souber que vou passar algo para o papel que não tenha a mínima importância, paro de fazer”, finaliza.
Matéria publicada originalmente no jornal Primeira Impressão – Março de 2008 – Especial 200 anos de Imprensa no Brasil