22/8/2008
Confira entrevista em vídeo com a poeta Zezinha Rezende
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O vídeo que você verá agora é uma gentileza de Valentina Rezende, sobrinha da poeta santista Maria José Aranha de Rezende, a Zezinha. Em janeiro de 1999, Valentina iniciava apresentação do programa “Show do Dia”, na TV Bandeirantes, e sua pauta era Terceira Idade.
Zezinha era sobrinha-neta do poeta-mor da Cidade de Santos, Vicente de Carvalho. Ela faleceu em junho de 1999, ou seja, esta, possivelmente, é uma de suas últimas entrevistas.
Clique aqui para assistir ao vídeo e leia alguns de seus poemas e uma crônica, abaixo:
Dois de seus sonetos do livro Sonetos que o Amor Inspirou, da Editora UNISANTA.
XXIX
Ó Mar da minha terra que marcas a paisagem
Desta cidade linda e hospitaleira,
Quantas vezes eu quis dizer de outra maneira
Sem repetir que és o “belo mar selvagem”...!
Quantas vezes, ó mar, quis conversar contigo,
Ouvindo o marulhar do teu clamor profundo,
Como soube fazer o teu melhor amigo,
Que conseguiu, enfim, penetrar no teu mundo!
Quantas vezes eu quis fazer versos, cantar,
Traduzir em poesia esta paixão secreta
Que também como ele, eu sinto pelo mar.
Mas tudo foi em vão, nada sou, nada valho.
A voz que escuto em mim é de outro poeta,
O poeta do mar, VICENTE DE CARVALHO.
XXX
Cantei o amor em tantos dos meus versos,
Cantei o sonho azul da mocidade,
Cantei os sentimentos mais diversos,
Que vão de uma esperança a uma saudade.
Agora, vou cantar a minha terra,
Ilha de luz, ardente, ensolarada,
Amor maior que minha vida encerra,
De quem sou uma eterna enamorada.
De braços estendidos dás abrigo
A todos os que vêm morar contigo,
Espalhas teu amor, prodigamente...
E eu não sei qual o maior dos teus encantos:
Se teu mar, se tuas praias, se tua gente.
Só sei que sou feliz, por ser de Santos.
Poemas do livro Fonte Sonora, editora do Autor:
Fábula
Um pobre vagalume,
Prestes a sucumbir, perguntou, num queixume,
À serpente feroz:
“Há tantos animais pela estrada que trilhas,
Que poderão matar a tua fome atroz.
Por que escolhes a mim, pequenino e inocente?”
- E, cheia de rancor, respondeu a serpente:
“Apenas, porque... brilhas”.
Cigarras
Tem a cigarra e o poeta
A mesma alma inquieta,
O mesmo sonho divino...
Cantam na dor, na alegria,
E a vida assim vão levando,
Até morrer de cantar!
Têm ambos um só destino,
Que ninguém pode mudar!
Amizade
Não creias, não, na amizade
Que sobra da cinza fria
De um grande e profundo amor.
Ela é apenas a saudade
Da chama que foi um dia,
- É um resto daquele amor...
Fim de mocidade
Felicidade que chegou tão tarde,
Que veio de mansinho, sem alarde,
A bater levemente à minha porta,
Agora, já no fim da primavera,
Quando não estava mais à tua espera,
Pois para mim foste promessa morta;
É tão lindo o convite que me fazes
São tão belas as coisas que me trazes,
Que a minh´alma se abriu de par em par...
Entra, Felicidade, em minha vida,
Desperta esta mulher adormecida,
Que se cansou de tanto esperar!
De Crônicas de Domingo, editora do Autor.
O pequeno tirano
Escrava que sou desse mentor impertinente durante os primeiros cinco dias da semana, é com um sentimento de alívio que vejo chegar o sábado e logo após o domingo, para libertar-me desse importuno companheiro, ou melhor, para esquecer-me de que existe o relógio.
Detesto esse pequeno objeto, de tão grande utilidade nos dias normais, mas tão positivo e dominador, a dar-nos constantemente a consciência da premência do nosso tempo, da rapidez das horas, onde dificilmente se acomodam a multiplicidade dos nossos afazeres. Nele se inscrevem, com aplacável velocidade os minutos da nossa vida, a intimativa da pontualidade. Quantas vezes o fitamos em nosso pulso, em rápidas consultas aflitivas, em olhadelas apreensivas, obedecendo cegamente os seus avisos e às suas imposições! Quantas vezes somos obrigadas a interromper uma boa prosa, uma ótima leitura, um sono reparador, só porque o relógio nos chama imperativamente para a realidade! Não é sem melancolia, confesso, que reconheço a atuação que esse insuportável objeto exerce na minha vida. É quase indispensável viver sem ele durante os cinco dias da semana, motivo pelo qual aguardo os dias de descanso para livrar-me desse tirânico, irritante cronômetro, e esquecer-me das horas, dos minutos, dos segundos, em suma, das suas precavidas advertências. E na delícia da minha breve independência, esqueço que possuo um relógio que logo na segunda-feira me lembrará, na sua muda e irônica impertinência, quão diminuto é o espaço de tempo perdido a que tenho direito entre tudo aquilo que compõe os cheios dias cotidianos. Logo bem cedo, esse meu silencioso adversário, com o seu tinir apressado de um toque de alvorada, me estará fazendo pular da cama e tenho a impressão de que talvez, caladamente, rindo dessa minha tão precária liberdade, o relógio se divirta dessa minha ilusão de quarenta e oito horas...
Ele é afinal quem tem razão, permanentemente, implacavelmente, abominavelmente, quando me recorda que a distância que dele me separa, nunca poderá ser senão uma homeopática parcela das horas todas que me impõe a sua companhia. Não é sem tristeza que chego à conclusão dessa desanimadora verdade. Dia chegará em que por um irresistível sortilégio, não precisarei mais ser escrava do relógio. E nem ele avalia a hora de singular contentamento que ficará marcada com ponteiros de ouro no meu coração, quando soar para mim esse dia de liberdade!